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Diário de uma voluntário no Centro de Apoio á Pessoa com Deficiência Mental

 

          Situado a  km de Vila do Conde – Touguinha.

Foi numa 6ª. Feira, depois de uma viagem turbulenta desde as 7 h da manha com sucessivas mudanças, lá cheguei a Vila do Conde. Já eram 12h30. A Drª Maria Helena, Assistente Social, já me esperava. Depois de uma troca de impressões, almoço e apresentação do projecto de voluntariado, o motorista Sr. Pascoal, lá me conduziu ao Centro. Neste centro, fui encontrar vários tipos de deficiência, visual, mental e motora. Alguns são residentes e outros utentes, que dormem no centro. Há 2 rapazes de 15 e 16 anos, que prestam voluntariado no Centro para os tempos livres. O restante pessoal, são funcionários que lidam com eles mais intensamente. Dão-lhes banho, comer e brincam com eles. Passeiam-nos, vão á praia. Entre as mais variadas actividades.

A cicerone foi a Sandra, responsável da parte da manha com o Dr. Brandão, o director do Centro. Ao fim de uma longa entrevista, fui instalado num quarto individual, que se situava no corredor das raparigas. Quarto 315 com wc privativo e com vista sobre o pátio. Hoje apenas faria o papel de observador.

A minha primeira saída com os deficientes (4ª. Feira), dia 7 de Agosto. A saída foi para um pequeno pinhal. Levei 2 deficientes mentais. Um deles cerrava os punhos, choramingava e havia logo quem se dispusesse a mandá-lo calar. Depois, ao chegar a hora do almoço, trouxemo-los para o Centro. Aos paraplégicos teria de dar o comer á boca, escovar-lhes os dentes e por fim, deitá-los. Durante a tarde, estão todos no pátio, com o pessoal auxiliar, que os vigiam até á hora do lanche, seguindo depois mais tarde, o banho.

Um rapaz de 22 anos, que estava no bar, apresenta uma deficiência numa mãe, mas nada fazer prever, que também tivesse perturbações mentais como me foi revelado por um deficiente de cadeira de rodas, o Paulo e pelo sr. José Carlos, monitor de carpintaria.

Em conversas mantidas com o Nuno Filipe de 21 anos, paraplégico, utente desde Abril desse ano (1996), pude compreender, uma série de actividades, face ao mundo que o rodeia no centro. Segundo ele, frequentou um curso em Gaia, e acabou por ser colocado ali, por incapacidade e ainda, segundo ele, foi chocante ver todo o ambiente que encontrou nos primeiros tempos. No entanto, devido ás circunstâncias da vida, já está integrado, acrescentando no entanto, não ser bem este centro, que pretendia. Acrescento eu, nem bem, nem mal, não era sequer este Centro, o mais apropriado.

Para quem lidou com cegos, ambliopes e motores, não se imagina, o quão indescritível é o ambiente vivido neste Centro de Apoio á Pessoa Deficiente Mental. Os sons demolidores de alguns deficientes mentais, como forma de manifestarem, as choradeiras e birras de outros, até nas actividades, face á vida social no Centro.

Quem chega pela primeira vez ao Centro, fica chocado por uma realidade, que nada tem a ver com o que conhecia antes noutros centros. São sociáveis e comunicam de uma forma diferente do normal comum. Por vezes, agarram-se ás pessoas com tanta força, que as magoam, para mostrarem o seu afecto. Dançam, riem-se por tudo e por nada, têm muitos e variados tiques, gritam, choram, amuam, como qualquer normal. Há uma grande necessidade de dar e receber amor, afecto, carinho e sobretudo, uma dose excessiva de paciência, que sem estes atributos, nada se fará deles ou sem eles.

Quinta-Feira, 8 de Agosto. Depois do Pequeno Almoço, formámos grupos para irmos á Bouça (pinhal) e outros iriam para a praia. Tal como acontecia, levei 2 deficientes mentais. Já lá na Bouça, entre gritos de uns e choro de outros, eu ia apreciando o panorama como observador. Ia-me apercebendo das sensações e emoções de todo o comportamento entre eles. Tudo era novidade para mim, e um misto de pena, medo e confusão me envolvia naquela imagem, quase surreal. Como deficiente visual, tinha a vida facilitada, como normal complicava-se mais. O choque foi mais forte do que o impacto de entrar numa sala de brincar com vários deficientes mentais. Da parte da tarde e depois de virmos do Pinhal, decidi ir ter com o director, pedindo-lhe as mais sinceras desculpas, pois o regresso a Lisboa era inevitável, por não dar resposta ao que me propusera fazer e por ser o único que veio de longe e mais tempo resistiu, já foi um esforço subumano. Deu para conhecer de perto, uma outra realidade, tão clara e tão óbvia, que é um desconhecimento total do cidadão comum.

Tudo é perfeito, limpeza, higiene pessoal, carinho e acompanhamento e têm a siorte de terem como responsável um brasileiro, Psicólogo, ex – terapeuta, Dr. Luís Brandão, não sendo como os outros, que passam a vida a resolver problemas no gabinete. Sociável, comunicativo e profissional. Passa a vida junto dos utentes, refeitório e bar. Vai observando o comportamento deles, dentro e fora do Centro, brincando com eles, como um excelente profissional que é, como é reconhecido das pessoas afectas ao Centros e que fazem parte da Santa Casa da Misericórdia de Vila do Conde. Bem-haja exemplos destes, que já faziam falta no nosso país. Pena terem de ser os de fora a darem-nos estes exemplos. O Dr. Luís Brandão, é oficialmente o tutor de alguns deficientes junto do Tribunal e é considerado por todos o Pai Herói! Porque nutrem por ele, um carinho e um respeito sem igual.

Parto para Lisboa, consciente, que tentei, esforcei-me e antes que se afeiçoassem demasiado a mim e vice-versa. Quero ir, porque depois, seria um choque violento para ambas as partes.


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